Gastrite Aguda

 

Por Laura Costa Beber de Jesus

                Conceito

Gastrite aguda é um processo inflamatório da mucosa, geralmente transitório.

            Patogenia

Essa inflamação desenvolve-se como uma resposta normal do organismo quando ocorre uma agressão à sua integridade, rompendo os mecanismos protetores. Essa resposta normal pode levar ao desenvolvimento de sinais e sintomas característicos dessa doença. A agressão que desencadeia o processo pode ser aguda ou crônica e, de acordo com seus tipos, podemos classificar as diversas formas de gastrite.

O lúmen gástrico é muito ácido (pH próximo de 1), fato que contribui para a digestão, mas por outro lado, tem capacidade de injuriar a mucosa gástrica. Fisiologicamente, a mucina secretada pelas células foveolares da superfície forma uma camada fina de muco, evitando o contato direto de partículas grandes de comida com o epitélio. Além disso, a camada de muco forma uma camada “inerte” de fluido sobre o epitélio que protege a mucosa e tem pH neutro devido a secreção de bicarbonato pelas células epiteliais da superfície. O rico suprimento vascular do estômago também é um fator de proteção da mucosa gástrica, uma vez que libera oxigênio, bicarbonato e nutrientes enquanto remove o ácido que foi difundido novamente pra a lâmina própria.

A gastrite aguda pode ser causada por diversos fatores diferentes:

  • Síntese reduzida de mucina em idosos o que aumenta a suscetibilidade à gastrite;
  • AINES (Antiinflamatórios Não Esteroidais): intereferem na citoproteção normalmente fornecida pelas prostaglandinas (fazem com que as células mucinosas produzam muco) e reduzem a secreção de bicarbonato. A injúria é dose dependente;
  • O uso de corticóide por longo período também pode levar a gastrite;
  • Pacientes urêmicos/infectados com H.pylori secretora de uréase: ocorre inibição dos transportadores de bicarbonato pelos íons amônio;
  • Ingestão de químicos agressivos, ácidos/bases, consumo excessivo de álcool, fumo, AINES, terapia radioativa, quimioterapia: ocorre dano direto da mucosa epitelial e das células estromais. Como a superfície da mucosa gástrica é substituída a cada 2 a 6 dias, os inibidores mitóticos usados na quimioterapia causam uma regeneração insuficiente,  danificando a mucosa;
  • Liberação de oxigênio diminuída: relacionada a incidência aumentada de gastrite aguda em altas altitudes;
  • Alguns traumas (por exemplo a intubação nasogástrica) e algumas infecções bacterianas/virais/fúngicas sistêmicas (ex., H.pylori, salmonelose, bactéria da tuberculose e da sífilis) podem induzir um quadro agudo;
  • Estresse intenso (ex., traumatismos, queimaduras, cirurgia, pacientes internados por muito tempo em unidades de tratamento intensivo);
  • Isquemia e choque;
  • Após gastrectomia distal;
  •  Formas incomuns: são causas mais raras como as gastrites linfocítica e eosinofílica, a gastrite granulomatosa isolada, e a gastrite associada a outras doenças como a sarcoidose e a doença de Crohn;

                Quadro clínico

A gastrite aguda pode ser assintomática ou causar graus variáveis de dor (em queimação; dor que melhora com a ingestão de alimentos) epigástrica, náuseas e vômitos. Pode haver saciedade precoce, ou seja, sensação de empachamento logo após a alimentação. Esse sintoma pode levar à redução e perda de apetite. Em quadros mais graves pode haver erosão da mucosa, ulceração, hemorragia, hematêmase, melena ou, mais raramente, perda sanguínea massiva.

Morfologia

Na forma mais branda, a lâmina própria exibe apenas edema moderado e ligeira hiperemia. O epitélio superficial apresenta-se intacto e existem neutrófilos espalhados entre as células epiteliais mucosas. A presença de neutrófilos acima da membrana basal é anormal e significa inflamação ativa. Com um dano mucoso mais grave, observam-se erosão e hemorragia. “Erosão” denota perda do epitélio superficial, gerando um defeito na mucosa que não atravessa a muscular da mucosa. É acompanhada por um infiltrado inflamatório agudo abundante e por extrusão de um exsudato purulento contendo fibrina para dentro da luz. A hemorragia pode ocorrer independentemente, gerando manchas escuras pontilhadas numa mucosa hiperemiada, ou em associação com a erosão. A concomitância de erosão e hemorragia é denominada gastrite hemorrágica erosiva aguda. Grandes áreas da mucosa gástrica podem ser afetadas, mas o acometimento é superficial e só raramente afeta toda a espessura da mucosa.

 

Diagnóstico

*Anamnese: presença dos sintomas listados anteriormente. O médico deve investigar os hábitos alimentares do paciente, uso de medicamentos, consumo de bebidas alcoólicas, se o paciente tem outras doenças já diagnosticadas.

*o diagnóstico de gastrite só pode ser firmado pela endoscopia digestiva alta, quando o médico visualiza a mucosa gástrica lesada e colhe fragmentos (biópsia) para exame citológico. Caso não seja realizada a endoscopia, o diagnóstico mais correto é o que chamamos de Dispepsia, que pode ser funcional ou não.

*Se a causa da gastrite for evidente já na história, como por exemplo, o uso de antiinflamatórios, o médico já indica o tratamento adequado. No caso do H. pylori, a identificação da infecção pode ser feita no material obtido pela biópsia.

Referências Bibliográficas:

Robbins SL, Cotran SR, Kumar V; Abbas A, Fausto N, Aster J. Bases Patológicas das Doenças. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

http://estudmed.com.sapo.pt/trabalhos/sindrome_hda_e_baixa_4.htm, acesso em 6/04/2012.