Por Luiza Boechat Tiago

A epidemia de AIDS continua a ser um dos grandes desafios para a saúde global. Aproximadamente 33 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo. Globalmente, somente em 2009, 2,6 milhões de pessoas foram infectadas pelo HIV e 2 milhões morreram em decorrência da AIDS, a maioria devido ao acesso inadequado a serviços de tratamento e atenção e, no Brasil, esse vírus acomete aproximadamente 0,5% da população.

A Síndrome da Imunodeficiência Humana Adquirida é a perda ou a diminuição acentuada da capacidade do sistema imunológico de defender o próprio organismo, por conta da ação do HIV (vírus da imunodeficiência humana), que ataca o sistema imunológico, precisamente as células do sistema imunológico responsáveis por agir contra infecções presentes em nosso organismo (linfócitos T ou CD4), considerando-se normal a contagem de CD4 entre 400 e 1.200 células/mm3 de sangue. Quando o indivíduo apresenta contagem de CD4 inferior a 200 células/ mm3, torna-se susceptível às infecções oportunistas, em razão da supressão de seu sistema imune.

Nos portadores de HIV, a pneumonia e a tuberculose assumem a liderança das pneumopatias e são a principal causa de óbito desses pacientes. Os dados revelam que 25% a 80% dos infectados por HIV adquirem essas infecções.

A pneumonia por Pneumocystis carinii (PPC) e a tuberculose por Mycobacterium tuberculosis são as infecções mais comuns que ameaçam a vida do indivíduo imunodeficiente. O P. carinii é um agente com características principais de fungo com clara afinidade pelos pulmões, transmitido pela via respiratória, notadamente de pessoa a pessoa. Essa infecção pode ser prolongada, com períodos de latência, e caracterizada por infiltração linfocitária e necrose da parede alveolar (Figura 1). Pesquisas indicam que até 50% dos casos de PPC ocorrem em pessoas ainda não diagnosticadas como HIV+.  O M. tuberculosis pertence ao gênero Mycobacterium, transmitido por inalação de gotículas infecciosas tossidas ou espirradas no ar por um paciente com tuberculose (perdigotos) e é caracterizado por infiltrados apicais ou subapicais uni ou bilaterais. Considera-se que cerca de um terço da população mundial está infectada pelo M. tuberculosis.

Essas duas doenças podem atingir extensas porções do pulmão e levar o indivíduo a falência respiratória.


QUADRO CLÍNICO: Tosse persistente, dispnéia aos médios e grandes esforços, febre discreta, variável produção de escaro.

PRINCIPAIS CAUSAS DE PNEUMONIA EM PACIENTES HIV POSITIVOS:

  • Pneumocystis carinii (PPC) – 45%
  • Bacteriana – 42%
  • Tuberculose – 5%
  • Citomegalovirus (CMV) – 4%
  • Aspergilose – 2%
  • Criptococose – 1%

FATORES PARA AVALIAR O PACIENTE COM HIV COM SUSPERITA DE PNEUMONIA:

  • Estágio do HIV – pela contagem de CD4: Na maioria dos casos, são pacientes com contagens de CD4 + < 200 células/mm³.
  • Tempo: Por PPC tem evolução lenta, geralmente tem início três semanas antes de procurar o médico; bacteriana e por influenza tem rápida evolução, com sintomatologia aguda; pelos outros agentes a evolução geralmente é lenta.
  • Alterações Radiológicas: A radiografia é imprescindível. Caracteristicamente, são observadas opacidades simétricas granulares ou reticulares bilaterais. Podem, contudo, ocorrer padrões menos característicos – inclusive com infiltração dos ápices, lembrando bastante casos de Tuberculose. Menos de 10% dos pacientes apresentam radiografias normais.

 

  • Uso de drogas injetáveis: Associado a altos índices de pneumonia pneumocócica, endocardite por S. aureus com êmbolos sépticos pulmonares, tuberculose e pneumonia por aspiração.

O exame de escarro, embora largamente utilizado, não é 100% confiável e o exame diagnóstico de escolha – broncoscopia com lavado broncoalveolar – pode não estar disponível, muitos estudos recomendam iniciar empiricamente o tratamento para PPC nos pacientes que podem tolerá-lo. Na profilaxia, a primeira escolha ainda é TMP/SMX. Em pacientes com intolerância à sulfa, recomenda-se dapsona.

OUTRAS ALTERAÇÕES RADIOLÓGICAS:

1- Consolidação (bactérias piogênicas, SK, Criptococose);

2- Infiltrados Reticulonodulares (P. carinii, M. tuberculosis, histoplasmose, coccidioidomiose);

3- Nódulos (M. tuberculosis, criptococose);

4- Cavitações (M. tuberculosis, criptococose, histoplasmose, S. aureus, anaeróbios);

5- Linfonodos Hilares (M. tuberculosis, histoplasmose, coccidioidomiose, linfoma, Sarcoma de Kaposi);

6- Derrame pleural (bactérias piogênicas, Sarcoma de Kaposi, M. tuberculosis).


Os tratamentos dessas doenças seguem esquemas terapêuticos triviais empregados há vários anos. No caso da pneumonia, o uso de Sulfametoxazol e Trimetoprima é o tratamento de primeira escolha, sendo substituído por Pentamidina ou outro fármaco, em caso de reação alérgica a algum dos componentes ou quando nenhuma resposta é observada. Para a tuberculose seguem-se esquemas padronizados pelo Ministério da Saúde, em função do estágio da doença.

Essas doenças são conseqüências da debilidade do sistema imunológico de pacientes HIV, sendo fundamental, portanto, a atenção médica e farmacêutica para a maior aderência ao tratamento, visando ao restabelecimento da saúde e ao aumento de sobrevida.

Fontes: